A série Vikings popularizou a história nórdica como poucas produções de TV conseguiram. Com batalhas intensas, personagens carismáticos e uma estética marcante, a produção despertou o interesse de muita gente pela chamada Era Viking (aprox. 793–1066).
Mas até que ponto o que vemos na série corresponde à história real?
Neste texto, vou analisar os principais eventos mostrados na série Vikings, comparando a narrativa da série com o que as fontes históricas, arqueológicas e literárias realmente indicam. Ao longo do texto, também tento explicar termos menos conhecidos e contextualizamos conceitos importantes para quem está começando a estudar o período.
E, se você chegou até aqui, vale uma breve apresentação.
Moro na Noruega há mais de 14 anos e minha primeira formação foi em História. Vivendo aqui, minha curiosidade naturalmente me levou a pesquisar mais a história do país e especialmente a Era Viking. Meu objetivo é tentar explicar, da forma mais simples possível, aquilo que muita gente considera difícil de entender.
Ano 750 – As mulheres da Era viking realmente lutavam?
O que a série mostra
Na série, mulheres como Lagertha são retratadas como donzelas do escudo (shieldmaidens), participando ativamente de batalhas, liderando tropas e ocupando posições de destaque em conflitos armados.
O que a história indica
As sagas islandesas, textos medievais escritos séculos depois da Era Viking, mencionam mulheres guerreiras em diferentes histórias. Por muito tempo, essas narrativas foram vistas apenas como literatura simbólica, não como relatos históricos confiáveis.
Em 2017, um estudo de DNA mudou parte desse debate. Um túmulo encontrado em Birka, na atual Suécia, tradicionalmente interpretado como o sepultamento de um guerreiro de elite, revelou pertencer biologicamente a uma mulher. O túmulo continha armas, dois cavalos e objetos associados a comando militar.
Apesar disso, os historiadores ainda discutem o alcance real desse fenômeno. A principal dúvida não é se mulheres puderam lutar, mas se isso era algo comum ou excepcional.
Mulheres guerreiras provavelmente existiram na Era Viking, mas não há evidências suficientes para afirmar que eram numerosas ou que lutavam de forma regular como mostrado na série. Aqui no blog tenho um artigo anterior sobre mulheres na Era viking.

Ano 804 (início do século IX) – Ragnar Lothbrok existiu de verdade?
O que a série mostra
Ragnar Lothbrok é apresentado como um líder carismático que ascende de fazendeiro a rei, explorador e estrategista militar, tornando-se uma figura central na narrativa da expansão viking. Em muitos sentidos, é difícil imaginar o sucesso da série sem esse personagem, já que sua trajetória funciona como o principal fio condutor da história. Ou vocês discordam?
O que dizem as fontes históricas
Ragnar Lothbrok aparece em várias sagas nórdicas e crônicas medievais, mas não há provas arqueológicas diretas de sua existência como um indivíduo histórico único.
A maioria dos historiadores acredita que Ragnar seja uma figura composta, ou seja, um personagem criado a partir das façanhas de diferentes líderes vikings reais que atuaram no início do século IX.
As sagas tentam situá-lo cronologicamente, mas não fornecem datas exatas confiáveis. Por isso, expressões como “por volta do início do século IX” são mais adequadas do que anos específicos.
Pensando no que seria uma Saga? Sagas são narrativas medievais islandesas que misturam história, tradição oral e elementos literários. Elas são fontes valiosas, mas não devem ser lidas como registros históricos diretos.
Ano 820 – Os navios vikings eram mesmo tão grandes?
O que a série mostra
A série apresenta navios longos, imponentes e visualmente impressionantes, capazes de atravessar oceanos e rios com facilidade.
O que a arqueologia revela
O maior navio viking já encontrado, conhecido como Roskilde 6, media cerca de 36 metros de comprimento. No entanto, ele era uma exceção.
A maioria dos navios vikings era menor, mais leve e extremamente funcional, ideal para:
- Navegação em rios rasos
- Desembarques rápidos
- Transporte por terra em trechos curtos
Um detalhe técnico importante: o leme dos navios vikings ficava no lado direito da embarcação. Essa característica deu origem ao termo inglês starboard.
A série acerta no conceito geral dos navios, mas exagera no tamanho e erra em alguns detalhes técnicos.

Ano 845 – Os vikings realmente sitiaram Paris?
O que a série mostra
Em Vikings, Paris é sitiada em uma grande campanha militar, com o uso de torres de cerco, aríetes e estratégias elaboradas. Do ponto de vista do fã, essa é uma das partes mais impactantes da série.
O que aconteceu de fato
Fontes históricas confirmam que Paris foi atacada em 845, durante o reinado de Carlos, o Calvo. O ataque foi liderado por um chefe viking chamado Reginheri, frequentemente associado a Ragnar nas sagas.
Registros indicam que a frota contava com cerca de 120 navios e milhares de homens. Após semanas de ataque, os francos pagaram aproximadamente 7.000 libras de prata para que os vikings se retirassem.
Não há evidências históricas do uso de torres de cerco vikings como mostrado na série. Essas estruturas eram típicas de exércitos medievais posteriores.
Danegeld: Danegeld era o pagamento feito a vikings para evitar ataques ou fazê-los recuar.
Ano 866–867 – Ragnar morreu em um poço de cobras?
O que a série mostra
Na série Vikings, Ragnar Lothbrok é capturado pelo rei Ælla da Nortúmbria e executado de forma brutal: jogado em um poço repleto de cobras venenosas. A cena reforça o caráter trágico e quase ritual da morte do personagem, além de servir como estopim para a vingança de seus filhos.
O que a história sugere
Ælla foi, de fato, um rei histórico que governou parte da Nortúmbria, no norte da Inglaterra. As fontes medievais mais confiáveis indicam que ele morreu em 867, durante os conflitos com o chamado Grande Exército Pagão, uma coalizão de guerreiros vikings que invadiu a Inglaterra nesse período.
A narrativa da morte de Ragnar em um poço de cobras aparece nas sagas islandesas e obras medievais escritas séculos depois dos acontecimentos que descrevem. Esses textos misturam tradição oral, simbolismo e elementos literários, o que dificulta separá-los de fatos históricos.
Por isso, a maioria dos historiadores considera essa versão mais simbólica do que fato. Algo que com certeza fãs discordaram. Mas lembrem-se: uma coisa não anula a outra. A história e a série são duas coisas diferentes, que encontram-se em pontos distintos e que, em outros, apenas nos dão um gostinho de como poderia ter sido a realidade da época.
A execução com cobras é parte da tradição literária e da construção mítica do personagem Ragnar.

Ano 867 – Os vikings falavam a língua mostrada na série?
O que a série mostra
Os personagens falam uma língua que soa antiga e “autêntica”, baseada em runas e frases curtas.
O que a linguística indica
A série utilizou consultores, mas o idioma falado é uma mistura de nórdico antigo, islandês moderno e inglês, adaptada para o público contemporâneo.
O nórdico antigo era a língua falada na Escandinávia durante a Era Viking, mas sua pronúncia exata é objeto de reconstrução acadêmica. Imaginamos apenas como seria.
A língua da série cria uma atmosfera convincente, mas não representa fielmente o idioma falado no século IX.
Conclusão: Vikings é história ou ficção?
Vikings não é um documentário, mas também não é pura fantasia. A série se baseia em eventos reais, personagens históricos e pesquisas acadêmicas, mas adapta tudo para criar uma narrativa envolvente. Que pessoalmente, eu amei.
Quando assistida com olhar crítico, a série funciona como uma porta de entrada para a história da Era viking, despertando curiosidade e incentivando a pesquisa.
Se você gosta de separar mito de realidade e entender melhor a Era Viking, continue acompanhando: toda semana tem história nórdica na terça viking no Instagram. E abaixo deixei algumas fontes pra quem costuma ser mais curioso.
Fontes
As informações históricas apresentadas neste artigo baseiam-se na combinação de sagas nórdicas, crônicas medievais europeias e pesquisas acadêmicas modernas sobre a Era Viking. Entre as principais referências estão:
- The Viking Way, de Neil Price
- Women in Old Norse Society, de Jenny Jochens
- The Vikings, de Else Roesdahl
- Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus
- A Female Viking Warrior Confirmed by Genomics (2017)


